quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Depois da tempestade, o sol?

7h30 da manhã, sai a Alfacinha de casa, encasacada, de luvas e cachecol para enfrentar os quatro graus centígrados anunciados na rádio. Está mesmo frio! Pelo menos não vai chover.
E começa a sua marcha.

Conduzida pelo itinerário traçado no site da Câmara, o mais curto, o mais rápido, lá vai a Alfacinha, de passo apressado para não congelar, muito atenta ao nome das ruas para não se enganar.
Porque não apanhar um táxi? Totalmente, completamente, categoricamente fora da lógica parisiense. Tal ideia não passaria, e de certeza que não passou, pela cabeça de nenhum jovem. Pernas para andar, pernas para pedalar? Pernas, para que vos quero! Ideia comodista, ideia preguiçosa, ideia pouco ecológica, ideia absurda numa palavra, essa do táxi.

Engraçado, ver a cidade a estas horas. À direita da Alfacinha o céu começa a ficar claro, com o sol a despontar. À esquerda, está tudo escuro, como se de noite.
E muita, muita gente na rua. Muita a pé, mãos nos bolsos, andar rápido e decidido. Muita, muita de bicicleta, aproveitando os corredores de autocarros não utilizados. Muita, muita, muita de carro, em filinha.
A esta hora, a cidade é de um silêncio incrível.
Incrível a sensação do amanhecer na cidade, do acordar da cidade, com o ar fresco a entrar pelo casaco e este silêncio.
Zigzagueando pelas ruas aí vai a Alfacinha, de pingo no nariz, «o choque do ar gelado com o respirar», de dedos imobilizados, sempre de mapa nas mãos para não se enganar.
A esta hora, cheira a pão quente por todo o lado. As padarias enchem os expositores, com baguettes, croissants, pains au chocolat, éclairs e outros doces mais voluptuosos, coloridos, de formas arredondadas, daqueles que fazem água na boca. Se pudesse, entrava em todas as padarias… Estaria mal, nesse caso, a Alfacinha, pois teria de parar a cada esquina.
Assim, passa só em frente às montras, comendo com os olhos, e vendo lá dentro as criancinhas que, antes de ir para a escolinha, tomam o seu pequeno-almoço. Atiram-se esfomeadas e deliciadas a um pain au chocolat, enquanto são arrastadas pelas mamãs, depressa que vai estar atrasado.
É a hora das criancinhas que vão para a escola.
É a hora dos senhores de cabelo grisalho ou mesmo branco, com um ar muito intelectual, de óculos redondos na ponta do nariz. É a hora de eles tomarem os seus pequenos almoços, Petit Déjeuner Continental 12 euros, Petit Déjeuner Gourmand 15 euros, Petit Déjeuner Parisien 10 euros, sentados nas esplanadas dos cafés, segurando com uma convicção e um à vontade de habitués, por cima da perna cruzada, um jornal aberto.

40 minutos de marcha. Às 8h10 chega a Alfacinha à sua sala de aulas, cheia de calor, com o nariz a escorrer, pernas a tremer. Tal como a maior parte dos seus colegas. Uns fizeram 45 minutos de bicicleta, outros 1h30 de marcha, outros ainda uns 30 minutos de scooter… E horas de acordar a condizer. Nem me posso queixar!
Turma incompleta, mas as aulas decorrem normalmente.
Durante o dia, vai-se sabendo a proporção da greve. Transportes? Zero. Restaurante universitário? Fechado. Beaubourg? Fechado também. Correios? Serviço condicionado.
Impossível de passar ao lado desta mobilização, apesar da notícia bomba do divórcio entre o Nico Sarkozy e a Cecília.

18 horas da tarde, fim das observações microscópicas de rochas, regresso a casa, mais 40 minutos de marcha, a cidade a escurecer, à medida que a Alfacinha caminha.
Outra vez os carros, as bicicletas, as pessoas. Outra vez um ar fresco, ar fresco de anoitecer. Outra vez os cafés, as esplanadas, com as senhoras a tomar chá, por baixo daqueles enormes postes aquecedores. Outra vez o perfume das padarias, e as criancinhas a lanchar, com as mamãs ao lado a segurar as mochilas. Outra vez as ruas estreitinhas, desta vez com lojas abertas, mais cafés abertos. A descoberta de um café português, com um imenso mural «Benfica campeão» e várias mesas ocupadas por senhores a jogar às cartas. E quase a chegar a casa, a surpresa de encontrar uma colega do Liceu de Lisboa. A surpresa de não se sentir totalmente desenraizada. Mas também a sensação de afinal não se ser totalmente anónima.

Depois da tempestade, o sol?
Talvez não. Parece que a greve vai continuar. Amanhã, nova marcha matinal.
Mas não faz mal. Foi bem bom.

2 comentários:

Paula Marques disse...

Paris a pé.
Não consigo imaginar.
Mas, se calhar vale a pena descobrir aquilo que não se vê quando se passa depressa demais. Se calhar vale a pena criar contactos solidários com aqueles que passam pela mma galera.
40 minutos deve ser agradável. 90 minutos mais custoso. Continuando assim, quem agradece é a sua linha.
Coragem, alfacinha.

Mab disse...

A foto deste post está no Machina Speculatrix!!!
Que honra, Alfacinha!!!!