terça-feira, 15 de janeiro de 2008

20h50, Estação de Saint-Michel

Acabadinha de sair do sapateado, ai que não posso com uma gata pelo rabo…, a Alfacinha deixa-se cair num banco à espera do metro. 4 minutos…

A esta hora, a estação está vazia. Ou quase.
A esta hora, a estação torna-se refúgio para os mendigos do bairro, velhinhos gorduchos ou escanzelados, barbudos... Clochards, que quase fazem parte da cidade, não passa um dia que não veja um…
A estação muda de cheiros. Desta vez, já não perfumes. Desta vez, cheiros orgânicos.
E pensar que há umas horas, sapatos altos, carteiras e óculos escuros…
Sentados, de olhos vagos, deitados, enrolados em sacos-cama, de costas voltadas, abraçando a sua solidão.
… gravatas, sobretudos e cachecóis…
E lixo. Restos. Garrafas. Páginas de jornal pelo chão. E ratos. Ratos que percorrem a estação de um lado ao outro, com rápidas escalas pelos caixotes de lixo.
No outro cais, o mendigo
- Eh!
Como se começasse uma conversa com o do lado,
- Concitoyens, concitoyens…
E o outro nada,
- Mes concitoyens. Mes concitoyens…
E levanta os braços,
- Eh! Ils se lèvent tôt le matin… les concitoyens… pour aller prier.
E pensar que iluminações de Natal, que cadáveres de árvores de Natal na rua, a fechar uma época feliz, pensar que lá fora saldos, restaurantes e cinemas…
- Mais le temps qu’ils aillent chier… qu’ils aillent chier… Qu’ils aillent chier !
Entusiasma-se com o silêncio incómodo da estação, com olhos que não o olham, que o evitam, com os ipods que se ligam e os auscultadores que vedam os ouvidos,
- Le temps qu’ils aillent chier, c’est déjà 10h30 ou 11h. Des bons chrétiens. Bons chrétiens. Les concitoyens. Mes concitoyens… concitoyens…
E um silêncio, um compasso de espera, talvez uma resposta, talvez uma voz, talvez alguém, quem sabe, talvez alguém que o ouça e lhe responda: oui, oui, les concitoyens, des bons chrétiens, toi aussi, bon chrétien…
- Je suis moi aussi un bon chrétien, bon chrétien… les concitoyens… mes concitoyens…

Chega o metro. A Alfacinha entra. Eles ficam.
En attendant Godot.

Ah! É verdade! Bom ano!

Photo daqui.

5 comentários:

Anónimo disse...

e um bom ano para ti querida maninha!!!!! :)
Pedro

Anónimo disse...

Dêem-lhes brioches!
Paula Marques

Maria Augusta disse...

Ora bem! Como a Marie Antoinette! Sim senhora!
Então como estamos de de prazos? Já me esqueci...

Mariana la Parisienne disse...

Eheheh! Foi dentro do prazo!
:D

Anónimo disse...

Pobres vagabundos! São uma espécie de Diógenes onde a "filosofia" tem uma origem bem mais revoltante. Bom ano para ti. JP