domingo, 16 de novembro de 2008

Da dificuldade de dizer qualquer coisa quando se tem muito que dizer.

Primeiro, ataca-se a coisa com boa vontade. Vamos a isso. Alinham-se duas palavras, duas ideias, três com sorte, mas não, não sai nada. Não é isto. Apaga-se tudo. Volta-se a tentar. Vêm as mesmas palavras, sempre as mesmas, melgas, as mesmas ideias, coxas. Não, também não é isto. Apaga-se tudo. Assim se pode passar a tempo. E quanto mais tempo passa, mais coisas ficam por dizer. Depois, ataca-se a coisa com mais agressividade. É desta que sai. Começa-se com alíneas: tudo o que é preciso assinalar.

- Que a Alfacinha entrou em Ciências Cognitivas na École Normale Supérieure de Paris.

- Toda a sua felicidade por ter realizado o projecto que a levara a Paris. Evitar lamechices, mas mostrar que lhe vieram as lágrimas aos olhos quando, do fundo do seu futuro casaco, recebeu o telefonema dos seus pais a dizer que o seu nome estava na lista dos admitidos.

- A série de buffets de boas vindas: Collège de France, École Normale… Junto à mesa dos petits-fours, numa mão o copo de champanhe, da outra um gesto ao cabelo de Quem-somos-nós.

- O seu orgulho ao exibir o cartão de estudante para o módico desconto na livraria. É de se perguntar se foi mais pelo desconto, ou pelo cartão.

- Toda a sua emoção quando entra nos locais, quando se move lá dentro sentindo que já começa a ser o seu espaço, quando se entretém nas aulas de filosofia na Salle des Actes a ver os nomes dos que por lá passaram, e cora, e se sente pequenina, tão pequenina.

- A admiração da Alfacinha quando vê em bibliografias os nomes que vê nas portas dos laboratórios.

- O reflexo da Alfacinha de olhar para o rés-do-chão do prédio de biologia quando é noite cá fora, e se vêem todos os laboratórios, todas as pipetas, tubos de ensaio e companhia provocadoramente em exposição.

- Os ataques de riso da Alfacinha quando acaba um mail com Cordialement.

- A vontade da Alfacinha de pôr uma música pimba a tocar numa sala onde dezenas de pessoas trabalham horas a fio num silêncio tumular, sem levantar a cabeça.

- A vontade da Alfacinha de inaugurar com um bom desenho ou um bom slogan filosófico as mesas completamente brancas das salas de aula. Ou simplesmente a clássica pastilha elástica na cadeira, ou no puxador da porta da casa de banho, numa tentativa de tornar o sítio mais parecido com qualquer faculdade.

- A estranha fauna que por lá anda: jovens rapazes que fazem corridas de Rubik Cube de 12 faces no recreio, meninas que se sentam no chão a brincar com papelinhos no meio do ginásio convertido em discoteca, pessoas que leram o Harry Potter em grego antigo, grupos de investigadores que à mesa da cantina têm a seguinte conversa: «Foi com FRET ou com FRAP que fizeste a experiência?», «A da KDEL e Rab5? Foi GFP simples. Estou tão entusiasmado com isto, não durmo há uma semana, o CNRS devia ter uma linha telefónica 24h para os investigadores…»

- Bref: sítio formidável, e etologicamente interessante.


Mas isto são apenas alíneas, ideias dispersas, sentimentos difusos que correm todos os dias na cabeça da Alfacinha. Tentam-se encadeamentos, textos propriamente ditos, mas tudo sai insuficiente, impreciso. Como tornar isto articulado, genuíno? Até à data, solução não encontrada.





A Cour Aux Ernests: bustos a toda a volta, um laguinho com peixes (os ditos Ernests) ao centro.

A Salle des Actes: com placas de mármore a toda a volta onde estão gravados os nomes dos que por cá passaram. Agora que estas já deram a volta à sala, uma nova série de placas de acrílico começa o seu périplo.

2 comentários:

Anónimo disse...

Só vim aqui à procura do teu e-mail; já tinha desistido de procurar novidades neste blog.
Que surpresa! Bem me parecia que andavas a curtir o teu novo estatuto. Que bom que é estares onde querias. É justo e merecido. Desejo-te MUITAS, MUITAS felicidades.
E a pergunta que queria fazer-te, vou fazê-la por e-mail...
Bjos. MM

Anónimo disse...

Já foi só mesmo por distracção.
Já não esperava mesmo nada.
Nem sei porque ainda não tinha apagado este blog (mentira, sei, porque tinha gostado mesmo muito dele).
Carreguei e ... nova entrada.
Nova esperança?
É para valer?
Vai recomeçar?
Um novo ano lectivo?
Com a alfacinha de uma verde mais escurinho?
Fiquei tão feliz!
Coragem para as novidades.

A leitora assídua, Paula Marques